Uma mini-moqueca para Francisco – e para voltar ao blog

outubro 13, 2009

Hoje, o pai trouxe duas postas fresquinhas de cherne da feira, mais um talo grande de alho-poró. A mãe pegou o limão na fruteira, jogou um pouco de sal e uns ramos de cebolinha, cortou um tomate sem sementes e deixou o peixe pegar gosto. Enquanto isso, o inhame, a batata, a couve e a cenoura foram cortados em pedaços pequenos. O alho-poró foi ralado para a panela, com um pouco de azeite. O peixe foi em seguida, para ser refogado. Depois de pegar uma corzinha, ganhou a companhia dos legumes. Um pouco de água para cozinhar e, em poucos minutos, a sopinha ou mini-moqueca estava pronta.
 
Francisco já tem nove meses, dois dentes e está sendo apresentado, aos poucos, ao maravilhoso mundo da gastronomia. Esse mês, conheceu biscoito de maizena, queijo minas, compota de goiaba, pera cozida com ricota e peixe, com alho-poró. A mãe faz questão de comprar legumes, verduras e frutas frescas uma, duas, três vezes por semana para ele. E de levá-lo às compras, para aprender, desde cedo, o que e por que está comendo.
 
Ele adora as visitas à feira, ao hortifruti e ao varejão da esquina. Em casa, um de seus programas prediletos é brincar com laranjas, batatas, mamões e o que mais estiver na fruteira, que já derrubou – por sorte não em cima de sua cabeça. 

A mãe quase não cozinha mais para a família, tem preguiça, fica cansada de perseguir o filho alpinista de móveis. Ele já fica em pé, dá uns passinhos com a ajuda de uma mão e não para quieto um minuto. Engatinha a casa inteira, tenta subir no sofá, quer descer da cama, já caiu do trocador e não dá sossego. A mãe está cansada, mas nunca foi tão feliz na vida.

Risoto com Bachianas

outubro 30, 2008

Depois de trabalhar três fins de semana em outubro, por causa das eleições, estou tentando achar ânimo para voltar a escrever aqui. Tenho várias coisas para contar, de casa, de receitas. Vamos começar pelas últimas. Há dois domingos, o único que folguei no mês, aprendi a fazer risoto. Já estava mal-acostumada, porque esse prato é A especialidade do meu marido – quase a única coisa que ele sabe fazer, embora tenha se esforçado muito para aprender outras. Mas, vamos combinar, um marido que sabe fazer o melhor risoto do mundo não é pouca coisa não, né?
 
Pois, no domingo do meu risoto, convidamos a vovó Gylce, mãe do meu sogro, para almoçar. O cardápio foi dos mais simples, e fica aqui a dica: salmão assado no forno, risoto perfumado de alecrim e salada verde. Esse salmão é a melhor alternativa para quem quer impressionar uma visita e é a coisa mais fácil e rápida de se preparar. Vamos lá: comprado o filé no supermercado (pode ser num mercado de peixe também, para quem mora perto ou se dispõe a andar um pouco para comprar), basta colocá-lo numa travessa (lá em casa, usamos umas de cerâmica lindas, que ganhamos no chá-de-panela. Causam a maior impressão, ficam lindas na mesa!) embebida em azeite, dos bons, e regar com molho shoyu. Põe no forno pré-aquecido a 180º e, 20 minutos depois, a coisa está pronta, cheirosa e deliciosa!
 
Comecei pelo salmão, mas, se o acompanhamento for risoto, é preciso prepará-lo bemmmmmm antes. Como acordamos tarde no dia e a vovó Gylce já estava ligando para saber se o Pedro ia mesmo buscá-la, tive que encarar o desafio de fazer o risoto sozinha. Não é nenhum bicho-de-sete-cabeças, mas dá um certo trabalho. Primeiro, é preciso preparar o caldo. Bem, escolhemos um de frango, com caldo knorr mesmo (sou adepta, na teoria, de preparar tudo naturalmente, mas a correria do dia-a-dia me impede de colocar muitas coisas em prática), numa panela separada. Enquanto ele fica pronto, corta-se uma cebola inteira, joga-se na panela wok (que sonho ter uma em casa!!) com azeite e vai passando. Quando ela tiver coradinha, é só jogar o arroz. Ah, antes disso, é bom deixar o queijo parmesão ralado. Gostamos de comprar um de uma boa marca, fica muito mais gostoso.
 
Depois de refogar o arroz, é só começar a jogar o caldo. O arbóreo começa a soltar aquela baba que dá liga ao risoto. Uma concha de caldo, uma mexidinha, a água seca, mais uma concha, uma mexidinha, a água seca… Vai nesse processo até chegar ao ponto do risoto. Liguei pro Pedro: “Não vou acertar o ponto”. “Vai, sim. Você não come risoto? Então, dá uma provadinha, vê se tá ao dente e pronto. Chegou o ponto”. Não é simples assim, à primeira vista. Mas, cheguei lá. Dado o ponto, desliguei a panela, joguei o punhado farto de parmesão em cima, uma colherada de manteiga e mexi. Ah, antes de desligar o fogo, coloquei um punhado de alecrim, para dar cheiro e gosto.
 
Isso tudo ao som de Villa-Lobos. Vovó Gylce, pianista e ex-cantora da Rádio Nacional, chega, eu ainda na cozinha, botando o salmão no forno, ouve as Bachianas e pergunta: “Como vocês adivinharam que gosto de Villa-Lobos?”. O resto foi uma tarde de música, conversa e uma sobremesa deliciosa, que meu marido aprendeu numa festa e repetiu em casa. Ah, querem saber? É fácil demais também: encha o liquidificador de sorvete de creme, deixe um espaço para um copo pequeno de Nutella e bata. Jogue a mistura numa tigela, quebre uns bombons (de sua preferência. No nosso caso, foram Serenatas de Amor, mas uns Ferrero Rocher não iam nada mal) por cima e leve ao freezer.
 
A receita de doce de bananas com pêras que peguei no Panelinha para fazer ficou para uma próxima ocasião.

O segredo de ser feliz em casa

outubro 11, 2008

Quando demos o primeiro beijo, na Av. Atlântica, eu ainda nem sonhava com o que estava por vir. Demoramos cinco longos anos para, finalmente, dividirmos o pote roxo (escolha minha, que ele gentilmente acatou) de escovas de dente. Eu não tinha dúvida de que tinha sido premiada com um marido ainda melhor que o namorado. Estou grávida, é verdade, mas a gentileza dele não apareceu agora. Sempre foi assim, o que me dava uma quase certeza de que tinha me transformado numa mulher de sorte.

Hoje, não comemoramos nenhuma data especial. Não é aniversário dele. Nem meu. Nem do namoro. Nem Dia dos Namorados. Mas, ouvindo uma música do disco que já é trilha sonora do meu novo lar, me deu uma vontade danada (contrariando todos os conselhos femininos de não fazer propaganda do amor para não atrair inveja! Mulher é bicho esquisito, né?) de escrever para dizer que o amo e que minha casa fica sempre mais bonita, aconchegante e querida com ele dentro. Para o meu marido, uma música cantada pela Roberta Sá (no seu ótimo segundo disco “Que belo estranho dia pra se ter alegria”), que já foi sucesso também na voz de Linda Batista.

Interessa? (Carvalhinho)

Se você quiser saber
Interessa?
Por que é que eu gosto dele
Interessa?
É que ele é meu benzinho
E me trata com carinho
Faz vontade pra mamãe
 
De manhã me dá um beijo
Quando sai pra trabalhar
Adivinha o meu desejo
Traz docinhos pro jantar
Quem é que não desejava
Ter um maridinho assim
A sorte não é pra todas
Talvez seja só pra mim
 
Interessa?

Um “crime” na livraria

outubro 9, 2008
Sentar numa livraria, pegar um livro e copiar à mão algum trecho é crime? Se é, cometi um ontem. Na verdade, nem foi a primeira vez que fiz isso. Em épocas de vagas magras, precisava de um texto do Arnaldo Jabor sobre “Deus e o diabo na terra do sol” para um trabalho de faculdade e não tinha dinheiro para comprar o livro onde ele tinha sido reproduzido. Também não encontrava referências na internet. Então, não hesitei em pegá-lo na livraria e o copiei. Aliás, já fiz muito isso em bibliotecas. No tempo da monografia sobre Glauber, as coleções do “Jornal da Bahia” na Biblioteca Nacional não estavam microfilmadas e não podiam ser copiadas, a não ser na munheca mesmo. Passei horas e horas copiando (minha tendinite na mão talvez tenha surgido nessa época).
 
Pois ontem, na Ponte de Tábuas, me sentei para tomar um café e, como de costume, peguei um dos livros sobre gastronomia expostos ao lado da mesa. Nem me lembro o título, sei que era de receitas antigas, do tempo de D.João XVI ou Pedro II, e era uma coleção patrocinada pela prefeitura, se não me engano. Mas o fato é que quando abri fui direto na página que trazia uma receita de sericaia, um doce que conheci no restaurante Da Silva, em Ipanema, o quilo do dono do Antiquarius. Foi amor à primeira mordida. Outro dia, procurei receitas dele na internet e nenhuma me abriu o apetite nem a vontade de fazê-lo. Mas, a do livro me pareceu fácil e apetitosa, e é assinada pela Flávia Quaresma.
 
Como estava esperando o meu marido, e ele não chegava, tive a idéia de copiá-la para passar o tempo. Quer dizer, eu tive vontade de copiá-la logo que vi o preço do livro. Dada a minha condição financeira atual, não posso me permitir mais a certas aventuras literárias (embora hoje tenha comprado três Machados de Assis, para saciar um desejo antigo de ter edições mais bonitas dele que as de bolso que tenho em casa. Mas, Machado é Machado, não é? Vale  o sacrifício e o olhar de reprovação do marido, preocupado com a conta do aluguel e do seguro do carro que está para vencer). O fato é que, juntando a fome com a vontade de comer, peguei uns guardanapos, disfarcei e iniciei o delito.
 
A sensação era a de quem estava fazendo “arte” e já já iria ser repreendida. O Pedro chegou e o fiz de cúmplice, ditando o resto que faltava. Bem, para amenizar meu suposto crime, vou dividir a receita com vocês, assim como o fiz com o texto do Jabor, que reproduzi em antigo blog. Então, com vocês:
 
Sericaia, by Flávia Quaresma
 
Ingredientes
 
500 ml de leite (2 copos)
4 g de casca de limão siciliano, sem a parte branca (3 cm)
10 g de canela em pau (1 unidade)
2 g de fava de baunilha (1/3 de unidade)
60 g de farinha de trigo (1/2 xícara)
6 gemas
150 g de açúcar (12 1/2 colheres de sopa)
4 claras
18 g de canela em pó para polvilhar (2 colheres de sopa)
5 g de raspas de limão siciliano (1 colher de sobremesa)
2 g de sal fino (1 colher de café)
 
Utensílios necessários
Peneira, vasilha refratária ou ramequim
 
Preparo 
Numa panela, levar ao fogo para ferver o leite com a casca de limão, a canela e a baunilha. Fazer uma infusão por 10 minutos. Resfriar. Peneirar e então dissolver a farinha neste leite aromatizado. Bater as gemas com o açúcar numa tigela até se obter um creme fofo e esbranquiçado. Juntar então a mistura ao leite, devendo ficar tudo bem homogêneo e sem grumos. Levar esse preparado para cozinhar e espessar bem sob fogo médio, mexendo constantemente até desgrudar. Adicionar as raspas de limão. Resfriar imediatamente. Bater as claras em neve bem firme e, então, incorporá-las delicadamente à mistura anterior _ como se faz para o suflê.
Numa vasilha refratária ou ramequim untado e polvilhado com farinha de trigo, colocar o creme em colheradas desencontradas, como se fizesse escamas. Polvilhar a superfície com a canela em pó e levar ao forno a 180º por aproximadamente 20 minutos. Servir imediatamente.

Que mistérios tem Clarice?

outubro 3, 2008

“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”

Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.

Foi quando me deparei com a frase lá em cima.

Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.

Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica

1) …
2) Morangos pessoas de idade
3) … o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)

Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.

Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.

Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.

Todas as mulheres em uma

outubro 2, 2008

Num tempo em que casar na igreja pode soar “careta”, “fora de moda” ou algo que o valha, é de se admirar a coragem da minha amiga Lu, que não só se vestiu de noiva como ainda acrescentou ao seu o sobrenome do marido. É um ato que, na minha opinião, está longe de ser conservador, justamente porque contraria a ordem vigente, que é a de não se acreditar no amor eterno, na constituição de uma família, no casamento “como manda o figurino”.

Eu sempre quis ser uma profissional realizada, tanto que coloquei a carreira em primeiro plano durante muito tempo na vida, mas nunca tive vergonha de confessar que só seria feliz no dia em que encontrasse um amor para dividir casa, comida, roupa lavada e filhos comigo. Admitir isso é o primeiro passo, acho, para aceitarmos a solidão e tirarmos proveito dela, sem deixar de buscar a felicidade (nesse caso, a de formar uma família).

Acreditar no amor e tentar a maternidade, portanto, sempre foram algumas das minhas principais metas _ sem deixar de lado o exercício da escrita e da leitura, minhas ferramentas de trabalho. Agora, já casada, estou aprendendo a cozinhar “de um tudo” e de como cuidar da casa, com a ajuda do meu marido. Uma coisa não exclui a outra e me sinto feliz, embora às vezes fisicamente cansada, de poder conjugar todas as mulheres numa só. Tenho certeza que a Lu Gondim, agora Miragaya, fará e sentirá o mesmo.

Um dia chuvoso para começar

setembro 26, 2008
“Nada como um dia de chuva para perceber o quanto a nossa casa é aconchegante!”
 
A frase, mais ou menos dita assim, foi do meu marido, hoje, na hora do almoço. Saboreávamos um bacalhau desfiado, feito no azeite, com salsa, cebola e ovos mexidos. Completava o menu arroz quentinho, salada de alface roxa, agrião, tomate e gorgonzola, cenoura ralada e feijão (esse último, item obrigatório na dieta de uma grávida prestes a bater o índice de anemia). Na mesa, pratos, talheres e taças novas. No bufê ao lado, a mais bela orquídea que uma mulher recém-casada pode receber de presente do marido, num dia de semana qualquer, sem cerimônia.
 
A vida de uma dona-de-casa grávida, profissional do mercado de trabalho, tem seus percalços. E são muitos. É o chuveiro que dá defeito pelo menos uma vez por mês. A receita que demora mais que o indicado no pacote do produto (nunca sigam essas receitas, prefiram as das mães, dos sites, blogs e programas de TV especializados em culinária). O edredon que sai da máquina cheio de poeirinhas impossíveis de serem retiradas à mão. As roupas por lavar e passar. A blusa que não dá mais porque a gravidez já está em estado avançado. O arroz que queima justo no dia que você recebe aquela visita especial, e, por se perder na conversa, esquece a panela no fogo por mais tempo. As contas por pagar…
 
Mas, tudo é recompensado num dia de chuva. Quando a casa está bonita, limpa e arrumada. Os micos pulam aos montes nas árvores da floresta em frente. Do forno sai o cheiro do biscoito de baunilha que você reaprendeu a fazer. No fogão, está a cozinhar o prato que vai entrar nos seus “10 mais”. Por perto, está o marido que sai para comprar a salada na feirinha do bairro. E a prepara quando chega a hora de montar a mesa. No varal, as roupas coloridas e cheirosas que você acabou de lavar. No banheiro, toalhas felpudas para enxugar seu corpo, após o banho quentinho (porque o chuveiro hoje está funcionando!). Nas paredes vazias, o planejamento para futuros quadros. Nos porta-retratos, momentos de felicidade ao lado da família e dos amigos. E, na barriga, um neném que mexe ao ouvir a voz do pai ou uma boa música.
 
Não existe melhor dia para começar um blog.