Um “crime” na livraria

By claudialamego
Sentar numa livraria, pegar um livro e copiar à mão algum trecho é crime? Se é, cometi um ontem. Na verdade, nem foi a primeira vez que fiz isso. Em épocas de vagas magras, precisava de um texto do Arnaldo Jabor sobre “Deus e o diabo na terra do sol” para um trabalho de faculdade e não tinha dinheiro para comprar o livro onde ele tinha sido reproduzido. Também não encontrava referências na internet. Então, não hesitei em pegá-lo na livraria e o copiei. Aliás, já fiz muito isso em bibliotecas. No tempo da monografia sobre Glauber, as coleções do “Jornal da Bahia” na Biblioteca Nacional não estavam microfilmadas e não podiam ser copiadas, a não ser na munheca mesmo. Passei horas e horas copiando (minha tendinite na mão talvez tenha surgido nessa época).
 
Pois ontem, na Ponte de Tábuas, me sentei para tomar um café e, como de costume, peguei um dos livros sobre gastronomia expostos ao lado da mesa. Nem me lembro o título, sei que era de receitas antigas, do tempo de D.João XVI ou Pedro II, e era uma coleção patrocinada pela prefeitura, se não me engano. Mas o fato é que quando abri fui direto na página que trazia uma receita de sericaia, um doce que conheci no restaurante Da Silva, em Ipanema, o quilo do dono do Antiquarius. Foi amor à primeira mordida. Outro dia, procurei receitas dele na internet e nenhuma me abriu o apetite nem a vontade de fazê-lo. Mas, a do livro me pareceu fácil e apetitosa, e é assinada pela Flávia Quaresma.
 
Como estava esperando o meu marido, e ele não chegava, tive a idéia de copiá-la para passar o tempo. Quer dizer, eu tive vontade de copiá-la logo que vi o preço do livro. Dada a minha condição financeira atual, não posso me permitir mais a certas aventuras literárias (embora hoje tenha comprado três Machados de Assis, para saciar um desejo antigo de ter edições mais bonitas dele que as de bolso que tenho em casa. Mas, Machado é Machado, não é? Vale  o sacrifício e o olhar de reprovação do marido, preocupado com a conta do aluguel e do seguro do carro que está para vencer). O fato é que, juntando a fome com a vontade de comer, peguei uns guardanapos, disfarcei e iniciei o delito.
 
A sensação era a de quem estava fazendo “arte” e já já iria ser repreendida. O Pedro chegou e o fiz de cúmplice, ditando o resto que faltava. Bem, para amenizar meu suposto crime, vou dividir a receita com vocês, assim como o fiz com o texto do Jabor, que reproduzi em antigo blog. Então, com vocês:
 
Sericaia, by Flávia Quaresma
 
Ingredientes
 
500 ml de leite (2 copos)
4 g de casca de limão siciliano, sem a parte branca (3 cm)
10 g de canela em pau (1 unidade)
2 g de fava de baunilha (1/3 de unidade)
60 g de farinha de trigo (1/2 xícara)
6 gemas
150 g de açúcar (12 1/2 colheres de sopa)
4 claras
18 g de canela em pó para polvilhar (2 colheres de sopa)
5 g de raspas de limão siciliano (1 colher de sobremesa)
2 g de sal fino (1 colher de café)
 
Utensílios necessários
Peneira, vasilha refratária ou ramequim
 
Preparo 
Numa panela, levar ao fogo para ferver o leite com a casca de limão, a canela e a baunilha. Fazer uma infusão por 10 minutos. Resfriar. Peneirar e então dissolver a farinha neste leite aromatizado. Bater as gemas com o açúcar numa tigela até se obter um creme fofo e esbranquiçado. Juntar então a mistura ao leite, devendo ficar tudo bem homogêneo e sem grumos. Levar esse preparado para cozinhar e espessar bem sob fogo médio, mexendo constantemente até desgrudar. Adicionar as raspas de limão. Resfriar imediatamente. Bater as claras em neve bem firme e, então, incorporá-las delicadamente à mistura anterior _ como se faz para o suflê.
Numa vasilha refratária ou ramequim untado e polvilhado com farinha de trigo, colocar o creme em colheradas desencontradas, como se fizesse escamas. Polvilhar a superfície com a canela em pó e levar ao forno a 180º por aproximadamente 20 minutos. Servir imediatamente.

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