“Nada como um dia de chuva para perceber o quanto a nossa casa é aconchegante!”
A frase, mais ou menos dita assim, foi do meu marido, hoje, na hora do almoço. Saboreávamos um bacalhau desfiado, feito no azeite, com salsa, cebola e ovos mexidos. Completava o menu arroz quentinho, salada de alface roxa, agrião, tomate e gorgonzola, cenoura ralada e feijão (esse último, item obrigatório na dieta de uma grávida prestes a bater o índice de anemia). Na mesa, pratos, talheres e taças novas. No bufê ao lado, a mais bela orquídea que uma mulher recém-casada pode receber de presente do marido, num dia de semana qualquer, sem cerimônia.
A vida de uma dona-de-casa grávida, profissional do mercado de trabalho, tem seus percalços. E são muitos. É o chuveiro que dá defeito pelo menos uma vez por mês. A receita que demora mais que o indicado no pacote do produto (nunca sigam essas receitas, prefiram as das mães, dos sites, blogs e programas de TV especializados em culinária). O edredon que sai da máquina cheio de poeirinhas impossíveis de serem retiradas à mão. As roupas por lavar e passar. A blusa que não dá mais porque a gravidez já está em estado avançado. O arroz que queima justo no dia que você recebe aquela visita especial, e, por se perder na conversa, esquece a panela no fogo por mais tempo. As contas por pagar…
Mas, tudo é recompensado num dia de chuva. Quando a casa está bonita, limpa e arrumada. Os micos pulam aos montes nas árvores da floresta em frente. Do forno sai o cheiro do biscoito de baunilha que você reaprendeu a fazer. No fogão, está a cozinhar o prato que vai entrar nos seus “10 mais”. Por perto, está o marido que sai para comprar a salada na feirinha do bairro. E a prepara quando chega a hora de montar a mesa. No varal, as roupas coloridas e cheirosas que você acabou de lavar. No banheiro, toalhas felpudas para enxugar seu corpo, após o banho quentinho (porque o chuveiro hoje está funcionando!). Nas paredes vazias, o planejamento para futuros quadros. Nos porta-retratos, momentos de felicidade ao lado da família e dos amigos. E, na barriga, um neném que mexe ao ouvir a voz do pai ou uma boa música.
Não existe melhor dia para começar um blog.
Setembro 26, 2008 às 9:41 pm |
Olha, outro dia te disse isso num email, mas repito, mais ou menos, aqui publicamente. Esse negócio de mulher independente é coisa das nossas mães, que queriam que suas filhas fossem bem sucedidas, pois eram revoltadas com pais opressores, com maridos malas, com uma sociedade careta.
Antigamente é que era bom. Qualquer pai de família, mesmo os que ganhavam pouco, sustentava seu lar. Calma, não sou reacionária. Explico. Queria não precisar trabalhar tanto para poder curtir a casa, cozinhar, assar pães para dar aos amigos, vizinhos, pintar quadros, fazer cursos, ler para os filhos tranquilamente no fim da tarde, ou no café da manhã.
Hoje temos síndrome de mulher maravilha – ai que coisa mais anos 70 – e temos de provar nossa força o tempo inteiro. Não há tempo, pelo menos para mim, para cuidar da pele ou dos cabelos. Graças ‘a deus estou satisfeita com diversos dos meus atributos. Se não estivesse seria muito infeliz. Mas lamento cada momento que não posso ficar em casa, sentindo o cheirinhop de sabão em pó das roupas do varal.
Setembro 26, 2008 às 10:21 pm |
Nique, você tem toda a razão. São poucas as mulheres que podem aprender a cozinhar, a cuidar de coisas caseiras com prazer. Fazer por prazer é o grande segredo da dona-de-casa, no melhor sentido da palavra – que tem sido desfigurado com o tempo.
Gosto de trabalhar fora, e estou feliz porque meu horário atual permite que eu cuide da casa, do corpo e da mente. Fico cansada também. Hoje, pude fazer tudo isso porque não ia ter hidroterapia. Mas, assim que acabou almoço, fui correndo para o salão pintar as unhas, e corri para o trabalho. Aqui, ficarei até, no mínimo, meia-noite. Mas há as recompensas…